As três obras da artista Adelaide de Freitas ("A Deusa da Arte", "A Rainha da Sardinha" e "O Segredo das Pirâmides") são o exemplo do que Arnheim estuda como o método egípcio e a orientação. Na pintura de Adelaide de Freitas, a Forma e a Cor convocam um território onde o mito, a imaginação e a exploração de realidades paralelas se fundem. Mais do que meras criações estéticas, a artista materializa personagens pictóricas de corte surrealista que parecem habitar outras dimensões e mundos paralelos ao nosso. Estas figuras, moldadas através do uso audaz de cores saturadas e fortes — como o azul, o vermelho, o laranja e o verde —, desafiam a visão egocêntrica de que a humanidade é a única expressão de vida no cosmos. São representações que convidam o espetador a refletir sobre a imensidão do universo e a existência de seres com formas que transcendem a imaginação humana.
No contexto desta exposição, a soberania destas personagens feitas de Luz e energia dialoga de forma fascinante com a joalharia dinástica do Museu do Tesouro Real. Se as insígnias e coroas de corte usavam o ouro e as pedras preciosas para materializar o poder absoluto e terreno dos homens, Adelaide de Freitas utiliza a Luz e a Cor para coroar os seus próprios seres interdimensionais. O azul e o verde da sua paleta remetem para a nobreza dos esmaltes e das esmeraldas, enquanto o vermelho e o laranja acionam a energia visual de gemas fenomenais. Esta abordagem aproxima-se do fulgor elétrico da espectrolite e do fenómeno da labradorescência, onde os clarões audazes de arco-íris e o magnetismo da cor funcionam como autênticas revelações de outros mundos, transformando a tela num portal para o infinito.
A obra “Ilhas” de Ana Gonçalves estabelece uma das pontes cromáticas e estruturais mais fascinantes da exposição, operando precisamente na fronteira onde a Forma e a Cor deixam de ser estáticas e passam a ser ditadas pela Luz. A sua composição apresenta uma transição fluida que transita entre os densos tons azuis do esmalte — que encontramos na imponência histórica da Placa da Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa — e o verde profundo e magnético das esmeraldas, visível na Medalha das Três Ordens Militares.
No eixo da Cor, esta passagem do azul para o verde assemelha-se ao fenómeno gemológico do pleocroísmo ou da labradorescência, onde a matéria parece conter múltiplas formas cromáticas que se revelam consoante o movimento do observador. O azul do esmalte representa a cor fundida na superfície, o reflexo vítreo e controlado da luz sobre o plano. Já o verde emulado transporta-nos para o comportamento da luz no interior de uma esmeralda: uma cor que não é superficial, mas que nasce das profundezas da gema, filtrada pelas suas inclusões naturais que fragmentam a luz e conferem à gema a sua textura.
A pintura "The mighty Pele”, de Barahona Possollo, funciona como um portal para a geodinâmica da Terra, traçando um paralelo rigoroso com a génese da alta joalharia do Museu do Tesouro Real. O vulcanismo sugerido na tela evoca os processos explosivos e ultraprofundos (a mais de 150 km de profundidade) que expeliram os diamantes do manto terrestre. Magmas raros, como os kimberlitos e lamproítos, serviram de "elevadores" supersónicos, arrastando estas gemas de carbono e os seus xenólitos até à superfície antes que se transformassem em grafite. No entanto, há uma diferença crucial de tempo. O ciclo dos diamantes ocorreu há cerca de 2,5 mil milhões de anos, em zonas profundas e estáveis conhecidas como cratões, sendo muitas vezes mais tarde dispersos pela erosão para rios e mares. Em contrapartida, a dinâmica das placas tectónicas e a atividade térmica na crosta continuam ativamente vivas. Assim, enquanto o ciclo do diamante adormeceu no tempo, muitas gemas continuam a ser geradas na Terra exatamente neste instante em que este texto é lido. Formam-se muito mais perto da superfície, na crosta terrestre (entre 5 a 30 km de profundidade).
Cristina Albaker consegue, através da sua fotografia “Briolette”, apresentar um místico jogo de claros-escuros numa criação que mimetiza a delicadeza, a forma e a volumetria de um pendente de alta joalharia. A estrutura assemelha-se bastante a um diamante em estado bruto, tal como quando é retirado da rocha matriz de kimberlito, exibindo superfícies texturizadas e pontas clivadas. Simultaneamente, a sua silhueta alongada remete para a sofisticação de um diamante lapidado em forma de briolette. Este pedaço de gelo estabelece um diálogo com uma das peças mais ricas em memória do acervo do museu: o Alfinete de Peito com Pérolas, uma peça histórica oferecida pelo rei Vítor Manuel II à sua filha, D. Maria Pia, aquando do seu casamento com o rei D. Luís, em 1862. Tal como o alfinete real combina a opulência dos diamantes com a suavidade das pérolas pendentes, a interpretação contemporânea da artista captura a essência desse magnetismo, unindo o património histórico à efemeridade da criação atual através da pura geometria da luz.
Daniel Schär expõe três obras cujas telas são dominadas por cores distintas: o amarelo em “What becomes clear”, o verde em “Underwater” e o vermelho em “Litany”.
Na obra em tons vermelhos, intitulada “Litany” — inspirada, segundo o artista, no compositor Arvo Pärt —, somos envolvidos por uma massa de vermelho intenso que evoca de imediato a presença do rubi ou do raríssimo diamante vermelho. Esta riqueza cromática estabelece uma relação visual direta com os grandes Rubis do acervo do Museu do Tesouro Real, símbolos históricos de poder dinástico e autenticidade.
O diamante vermelho, embora ausente da coleção do museu, representa o pináculo dos diamantes de cor (os chamados fancy colors). Trata-se da cor mais rara da natureza: quanto mais saturada e forte for a sua tonalidade, mais valioso e escasso se torna o mineral. O melhor exemplo desta raridade extrema é o diamante “Winston Red” (de 2,33 quilates). Sobre ele, Wuyi Wang, vice-presidente de investigação e desenvolvimento do GIA, afirmou: ”Um diamante natural obter a classificação de cor vermelha de fantasia é algo extremamente raro. Primeiro, precisa de ter uma cor perfeita nessa gama e, depois, a saturação também tem de ser impecável. Se for demasiado escuro, passa a preto; se for demasiado claro, transforma-se em cor-de-rosa.”
No centro da composição de “Litany”, uma mancha amarelada evoca a imagem de uma inclusão gemológica observada ao microscópio. No mundo real, embora a pureza dite o valor comercial, estas "imperfeições" são as assinaturas da natureza que provam a autenticidade de uma gema face a uma imitação sintética. No caso de um diamante vermelho, uma zona amarela interna assinala, geralmente, a presença de azoto.
Criada ao som da banda Tim Freitag, a obra em tons esmeralda “Underwater” exibe linhas que evocam as fraturas internas desta gema. Apesar da sua elevada dureza na escala de Mohs (7.5 a 8), a esmeralda possui uma tenacidade fraca devido a tensões estruturais brutas, o que a torna notoriamente frágil ao toque e à cravação — uma delicadeza visível nas impressionantes insígnias do Museu. Por outro lado, este verde denso assemelha-se também ao de um raríssimo diamante verde. Ao contrário da esmeralda, este diamante deve a sua cor a um processo extremo: a exposição prolongada à radiação natural nas profundezas da Terra, fenómeno geológico imortalizado pelo célebre Dresden Green.
Finalmente, na obra “What becomes clear”, o amarelo vibrante colide com massas escuras num campo cromático que evoca o peridoto. Esta é uma gema idiocromática, o que significa que a sua cor verde-oliva nasce da sua própria composição rica em ferro, e não de impurezas externas. Denominado "gema do sol" no Antigo Egito e favorito de Cleópatra, o peridoto atingiu o seu apogeu na arte sacra europeia, brilhando em peças monumentais como o relicário do Santuário dos Três Reis Magos, na Catedral de Colónia.
O diálogo conceptual desta exposição materializa-se de forma exemplar na fotografia artística de Isabel Soares dos Reis. Nesta macrovisão do mundo exterior vemos o espelho da microfotografia gemológica. A sua obra pode ser interpretada, através das suas linhas geométricas e planos de luz, como visualmente o fenómeno do internal graining — as linhas de tensão e crescimento gravadas na estrutura atómica profunda de um diamante. Por outro lado, ao capturar o rasto luminoso e fluído de uma ave em movimento contra um fundo ramificado, simula uma pena ou feather (as fraturas internas em forma de pena que habitam os minerais) como o efeito dinâmico da fotofluorescência, onde a matéria parece brilhar na escuridão ao reagir à luz.
Com a fotografia “What goes up must come down”, de Mac Gulbenkian, somos transportados para o campo da biologia animal através da figura de um pavão, cujo azul elétrico contrasta com o tom rosa-avermelhado da parede. Símbolo supremo de realeza e estatuto na Índia dos Marajás, o pavão exibe um azul profundo que evoca o brilho das safiras e das opalas. No entanto, o verdadeiro segredo da ave reside na física: as suas penas possuem nanoestruturas geométricas que dividem e refletem a luz, criando o fenómeno da iridescência. Este jogo de cores mutáveis é o mesmo que encontramos no reino biológico e mineral com a madrepérola — um efeito deslumbrante que pode ser apreciado no acervo do Museu através dos Leques Reais, das tabaqueiras e das caixas de rapé.
Marjorie Salvagni exibe três obras de pintura da sua ‘Série Transmutações’. Estas obras são altamente representativas daquilo que inspira a joalharia: a simbiose perfeita entre a arte e o mundo natural. Esta simbiose encontra eco na Morfologia Estrutural de Lancelot Law Whyte, que defende que todas as estruturas vivas partilham um sistema coordenado de simetria e transformação. Sob esta perspetiva, a matéria orgânica está sempre em processo de transição (mutação) para alcançar o equilíbrio, transformando a obra num registo visível de um processo dinâmico de crescimento, mutação e coordenação interna que rege tanto a biologia como o cosmos.
Exemplo máximo deste diálogo entre a joalharia e o mundo natural é a Cartier — uma das mais prestigiadas casas de alta joalharia do mundo e criadora de peças para várias cortes europeias —, que adotou a pantera (retratada na tela flanqueada por uma exuberante flora tropical) como o seu símbolo icónico, imortalizando a força e os movimentos sinuosos da natureza em metal e pedras preciosas. Foi sobre o esplendor desta casa que o rei Eduardo VII do Reino Unido cunhou a célebre máxima: "Cartier, o joalheiro dos reis e o rei dos joalheiros”.
Numa composição de cores ricas e variadas, a obra de Salvagni harmoniza a fragilidade dos elementos orgânicos, como as pérolas (nascidas da própria vida), e a força dos inorgânicos, materializada no diamante que flutua no topo da tela. A gema surge representada no seu perfil clássico e universal de lapidação brilhante, onde se distinguem claramente a coroa, a cintura e as facetas geométricas do pavilhão que afunilam em direção à base. Esta estrutura lapidada introduz uma rigidez cristalina e simétrica que contrasta com a fluidez orgânica da vegetação envolvente. Nas pérolas, esta riqueza cromática manifesta-se através dos fenómenos de Matiz e Oriente (Overtone & Orient): o primeiro, revelando as subtis tonalidades secundárias que flutuam sobre a cor base da gema; o segundo, o seu brilho iridescente e profundo, que parece emanar do seu interior. Esta dualidade material e cromática remete diretamente para a Placa das Três Ordens Militares, uma das maiores obras-primas do acervo do museu, onde o diálogo entre o "fogo" dos diamantes e o brilho das gemas de cor dita o ritmo absoluto da luz.
O trabalho de Maria João Vale expõe obras que contrastam entre o vermelho e o azul, numa paleta que remete para o magnetismo dos rubis e das safiras do acervo do Museu. A obra “Piscina”, em tons de azul, funciona como uma metáfora macroscópica da gemologia: os reflexos ondulantes da água ilustram com precisão os fenómenos de Brightness (Brilho), Scintillation (Cintilação) e Refração. Enquanto a metade superior revela a geometria estável da rede de azulejos, a metade inferior mostra a luz a atravessar a água, alterando a sua velocidade e direção. Este processo de Refração é análogo ao comportamento da luz no interior de uma gema, ditado pelo seu Índice de Refração (RI). As zonas onde a luz é devolvida de forma intensa representam o Brightness, enquanto o movimento fluido que gera flashes e áreas escuras exemplifica a Scintillation. O azul saturado evoca ainda a fluorescência azul das gemas sob radiação ultravioleta, fazendo uma ponte com o famoso “Diamante Português”. Além disso, a turbulência da água atua como facetas vivas que decompõem a luz, ilustrando o conceito de Fire (Fogo) ou Dispersão (a separação da luz branca nas cores do arco-íris ao atravessar um meio denso). Este efeito de Dispersão é amplificado em simulantes como a Zircónia Cúbica ou a Moissanite, mas também se manifesta de forma única nos diamantes da Coroa Portuguesa expostos no Museu, caracterizados pelas suas lapidações antigas, como a lapidação em rosa (rose cut) e as lapidações old mine cut e old European cut.
No percurso desta exposição, a obra de Martin Stranka surge como um poderoso ponto de ancoragem para o fator humano — o recetáculo final onde a física da luz se transforma em emoção através da retina. Ao apresentar uma fotografia em preto e branco focada nos olhos, o artista resgata a nossa própria capacidade de testemunhar e interpretar o mundo, conectando a ciência da visão à profundidade da alma. Estes olhos, que integram uma série densa e intimista que o fotógrafo dedicou ao tema da perda, flutuam num espaço emoldurado pelo vazio absoluto de um fundo preto. Aqui, o olhar manifesta-se como um símbolo complexo, onde coexistem a afirmação, o luto e a negação. Sob a lente de Stranka, opera-se a dualidade máxima da física e da arte: o preto como a ausência absoluta de cor e o branco como a totalidade mística da luz.
Ao analisarmos a obra de Martin Stranka, percebemos como ela se alinha com a visão de Rudolf Arnheim sobre o olhar frontal — exemplificado por Arnheim na face de Cristo de Albrecht Dürer. O teórico explica que este olhar isolado cria uma força vetorial direta com o espetador: os olhos deixam de ser mera anatomia e passam a ser o centro da mensagem, funcionando como um íman percetivo que exige uma reação psicológica imediata.
Historicamente, a cor/pigmento preto, evoca a opulência da própria realeza europeia: entre os séculos XV e XVII, o pigmento preto era um dos mais caros e difíceis de obter, servindo como o símbolo máximo de riqueza, autoridade e sofisticação aristocrática.
Na alta joalharia, essa mesma densidade ganha uma nova vida através de diamantes pretos. Descobertos originalmente em 1841, numa era pós-colonial, na região da Bahia, no Brasil — onde ficaram conhecidos como "carbonados" — usados para uso industrial.
Os diamantes pretos ficaram famosos mais tarde, no final da década de 1990, quando o designer suíço Fawaz Gruosi, fundador da casa De Grisogono, elevou o diamante preto ao estatuto de luxo. Na obra de Stranka, o preto resgata toda esta carga histórica e mineral: deixa de ser um mero plano de fundo e passa a ser a presença mais profunda da exposição — o lugar onde a luz se recolhe para dar espaço à memória.
Mónica de Morais cria uma obra que pulsa na perfeita harmonia entre luz, forma e cor. Na sua primeira criação, 'Passagem', a sombra surge como o elemento principal, projetada pela luz que incide sobre uma aparente 'cruz' ou um 'T' gerado pelo contraste entre o claro e o escuro. Aqui encontramos os quatro elementos fundamentais desta exposição: a sombra, a luz, a forma e a cor. A cruz é o ponto de encontro, a fronteira e a transição entre o plano horizontal e o vertical, entre o claro e o escuro.
Um formato de letra muito utilizado na joelheira desde a época medieval. Já na obra '9', que representa um cubo a desfazer-se em tons escuros, acinzentados e linhas pretas, a artista remete-nos para o sistema cristalino cúbico (ou isométrico). Trata-se da estrutura interna de gemas altamente simétricas e valiosas, evocando aqui um diamante em desconstrução, a desaparecer. Sabendo que, na estrutura do diamante, cada átomo de carbono está ligado covalentemente a outros quatro átomos de carbono dispostos nos vértices de um tetraedro regular, a artista subverte esta rigidez científica com o numero '9'. A artista utiliza assim a Forma de Distorção ou Deformação (Deformation) descrita por Arnheim, subvertendo a rigidez geométrica da estrutura atómica do diamante com o misticismo do número que a titula.
Rita Andrade apresenta uma abordagem figurativa focada nos olhos e na cor púrpura. Os olhos simbolizam aqui o próprio veículo da visão humana, o recetor absoluto sem o qual seria impossível à retina captar o jogo de luz e cor que rege esta exposição. Em paralelo, o tom púrpura confere à obra uma aura de exclusividade associada à realeza e ao clero, numa alusão direta à ametista. Esta gema, que hoje admiramos em grandes coleções históricas — como no acervo do Museu do Tesouro Real —, deteve durante séculos um estatuto de enorme preeminência na joalharia de corte e na insígnia eclesiástica. Ao colocar o olhar em confronto com o púrpura, a artista convida o visitante a resgatar a memória histórica do luxo e da devoção, transformando o ato de ver numa experiência de contemplação quase sagrada. Antes da descoberta das grandes minas no Brasil no século XVIII, a ametista era tão rara e valiosa quanto o rubi ou a safira. O roxo era a cor do poder, obtida através de processos caríssimos na antiguidade (como a púrpura de Tiro). Como as ametistas eram escassas (as principais fontes eram a Sibéria e o Egito), apenas a realeza e o alto clero as podiam financiar — daí o seu uso tradicional nos anéis dos Bispos e nas Joias da Coroa.A ametista possui um pleocroísmo uma a capacidade de mostrar cores diferentes quando vista de ângulos distintos.
Na obra de RVieira, o verde da natureza funde-se com a nobreza mineral da esmeralda. Ao capturar uma paisagem onde a luz incide diretamente sobre a vegetação, a artista transfigura o espaço, desdobrando-o em infinitas tonalidades esverdeadas. Esta conexão evoca, de forma quase mística, o próprio 'jardin' (jardim) das esmeraldas — o nome técnico dado às inclusões internas da gema que mimetizam a vida botânica —, provando que a luz, ao tocar a matéria, tem o poder de transformar paisagem em joia. A cor verde nas plantas vem da clorofila, que absorve a luz solar para gerar vida. Nas esmeraldas, o verde nasce da absorção da luz por vestígios de crómio e vanádio. A artista, ao pintar a luz a incidir na vegetação, está a replicar o exato milagre ótico que a Terra faz para colorir a gema. Já no século I, o filósofo Plínio, o Velho (o mesmo do mito da pintura) escrevia Livro XXXVII (o 37.º volume), que é dedicado inteiramente às pedras preciosas e à gemologia - "Nenhuma cor é mais agradável aos olhos. Pois, enquanto observamos outras gemas e ervas, cansamo-nos, mas a esmeralda, ao olharmos para ela, refresca a nossa visão e fatiga-se com a sua contemplação; e os gravadores de pedras preciosas, ao trabalharem nelas, não têm meio melhor de repousar a vista do que fixando o olhar nesta pedra.” Plínio, o Velho.
No caso da obra “O Galo”, estamos perante a biologia animal e não a vegetal. O galo assume uma beleza incontestável na cultura portuguesa, destacando-se a complexidade da sua plumagem e crista. A plumagem do galo, à semelhança da do pavão, exibe uma iridescência estrutural fascinante.
Quando a luz incide sobre as penas, cria um efeito visual dinâmico que, embora evocativo do fenómeno físico do pleocroísmo ou do jogo de cores típico das gemas, resulta de um processo de difração e interferência da luz na microestrutura da pena. Dependendo do ângulo de visão (simetria de observação), certas ondas de luz são canceladas enquanto outras são reforçadas, fazendo com que o galo pareça mudar de tonalidade — do azul metálico para o verde-esmeralda ou cobre.
A plumagem do galo é um exemplo perfeito de biomorfismo geométrico. Se ampliarmos a superfície de uma das suas penas, observaremos uma grelha de elementos alinhados tão rigorosamente como os átomos numa estrutura cristalina. É esta organização repetitiva que "quebra" a luz branca e nos devolve cores puras e saturadas, funcionando de forma análoga à de uma gema lapidada, cuja geometria é precisamente calculada para maximizar o seu "fogo" ou dispersão de luz.
A obra de Teymur Rustamov transita fluidamente entre o violeta e o vermelho, gerando um gradiente cromático que ecoa um fenómeno fascinante do reino mineral: o color zoning (zoneamento de cor). Esta transição, frequentemente observada em safiras e turmalinas bicolores, reflete as variações da matéria na própria tela, como se a pintura imitasse o crescimento orgânico de um cristal. Na natureza, as frentes de crescimento químico fundem-se de forma subtil, criando uma passagem impercetível onde o violeta se dissolve lentamente até se transformar em vermelho. A turmalina, considerada um autêntico camaleão mineralógico, ilustra na perfeição esta mutação: a sua transição tonal (frequentemente associada às variedades de indigolite e rubelite) ocorre devido a flutuações nas concentrações de manganês e ferro na solução hidrotermal profunda.
Teymur Rustamov parece refletir com precisão a visão de Lancelot Law Whyte, para quem a ausência de uma geometria rígida não significa falta de lógica, mas sim um padrão dinâmico e fluido que foi "congelado" no tempo, tal como o crescimento químico de uma turmalina bicolor profunda nascido da dialética entre as partes e o todo.
Para aprofundar este cruzamento entre Luz, Forma e Cor, convidámos um painel de especialistas de diversas áreas para partilharem a sua visão. Neste folheto, encontrará ainda material educativo e científico desenhado para enriquecer a sua experiência.
Esperamos que desfrute desta viagem única entre a exposição contemporânea e a coleção permanente do museu. Boa visita!
O Curador: Francisco Lacerda