As obras selecionadas para esta exposição transitam livremente entre a fotografia, o desenho e a pintura. Embora pertençam a diferentes suportes e linguagens, encontram o seu ponto de união justamente na mestria com que manipulam a luz e a cor. Estabelece-se, assim, um diálogo — ora explícito, ora implícito — entre a cor, a arte, a natureza e a joalharia. Neste ecossistema criativo, tudo está interligado e tudo serve de estímulo. Afinal, os joalheiros sempre encontraram a sua maior herança e inspiração nos movimentos artísticos e nas formas efémeras da natureza.
As três obras da artista Adelaide de Freitas ("A Deusa da Arte", "A Rainha da Sardinha" e "O Segredo das Pirâmides") são a personificação perfeita do que Arnheim estuda como o método egípcio e a orientação. Na pintura de Adelaide de Freitas, a Forma e a Cor convocam um território onde o mito, a imaginação e a exploração de realidades paralelas se fundem. Mais do que meras criações estéticas, a artista materializa personagens pictóricas de corte surrealista que parecem habitar outras dimensões e mundos paralelos ao nosso. Estas figuras, moldadas através do uso audaz de cores saturadas e fortes — como o azul, o vermelho, o laranja e o verde —, desafiam a visão egocêntrica de que a humanidade é a única expressão de vida no cosmos. São representações que convidam o espetador a refletir sobre a imensidão do universo e a existência de seres com formas que transcendem a imaginação humana.
No contexto desta exposição, a soberania destas personagens feitas de Luz e energia dialoga de forma fascinante com a joalharia dinástica do Museu do Tesouro Real. Se as insígnias e coroas de corte usavam o ouro e as pedras preciosas para materializar o poder absoluto e terreno dos homens, Adelaide de Freitas utiliza a Luz e a cor pura para coroar os seus próprios seres interdimensionais. O azul e o verde da sua paleta remetem para a nobreza dos esmaltes e das esmeraldas, enquanto o vermelho e o laranja incansáveis acionam a energia visual de gemas fenomenais. Esta abordagem aproxima-se do fulgor elétrico da espectrolite e do fenómeno da labradorescência, onde os clarões audazes de arco-íris e o magnetismo da cor funcionam como autênticas revelações de outros mundos, transformando a tela num portal para o infinito.
A obra “Ilhas” de Ana Gonçalves estabelece uma das pontes cromáticas e estruturais mais fascinantes da exposição, operando precisamente na fronteira onde a Forma e a Cor deixam de ser estáticas e passam a ser ditadas pela Luz. A sua composição apresenta uma transição fluida que transita entre os densos tons azuis do esmalte — que encontramos na imponência histórica da Placa da Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa — e o verde profundo e magnético das esmeraldas, visível na Medalha das Três Ordens Militares. No eixo da Cor, esta passagem do azul para o verde não é acidental; a artista mimetiza o fenómeno gemológico do pleocroísmo ou da labradorescência, onde a matéria parece conter múltiplas formas cromáticas que se revelam consoante o movimento do observador. O azul do esmalte representa a cor fundida na superfície, o reflexo vítreo e controlado da luz sobre o plano. Já o verde emulado transporta-nos para o comportamento da luz no interior de uma esmeralda: uma cor que não é superficial, mas que nasce das profundezas da gema, filtrada pelas suas inclusões naturais que fragmentam a luz e conferem à pedra a sua textura viva.
A pintura "The mighty Pele” de Barahona Possollo funciona como um poderoso portal visual para a geodinâmica profunda e superficial da Terra, ilustrando a força motriz que conecta o manto terrestre à crosta e permitindo traçar um paralelo científico rigoroso com a génese dos materiais que compõem a alta joalharia do Museu do Tesouro Real. Embora a atividade vulcânica comum sugerida na tela não gere diamantes diretamente, ela evoca o vulcanismo explosivo e ultra-profundo que ocorre a mais de 150 quilómetros de profundidade, onde magmas quimicamente distintos, como os kimberlitos e os lamproítos, serviram de "elevadores" para arrastar estas gemas de carbono estável e os seus xenólitos até à superfície a velocidades supersónicas, impedindo a sua transformação em grafite. Este fenómeno magmático específico deu-se maioritariamente no passado remoto do planeta, há cerca de 2,5 biliões de anos, concentrando-se nas porções mais antigas e estáveis das placas continentais — os cratões —, a partir dos quais a erosão milenar acabou por desmantelar as chaminés vulcânicas originais e dispersar os diamantes para depósitos secundários aluvionares em leitos de rios, praias e no fundo do mar. Em contrapartida, enquanto o ciclo profundo dos diamantes se encontra adormecido, a dinâmica das placas tectónicas continua ativamente viva e a gerar novas gemas coloridas exatamente neste instante em que o texto é lido.
Cristina Albaker consegue, através da sua fotografia, apresentar um místico jogo de claros-escuros numa criação que mimetiza a delicadeza, a forma e a volumetria de um pendente de alta joalharia. A estrutura assemelha-se bastante a um diamante em estado bruto, tal como quando é retirado da rocha matriz de kimberlito, exibindo superfícies texturizadas e pontas clivadas. Simultaneamente, a sua silhueta alongada remete para a sofisticação de um diamante lapidado em forma de briolette. Este pedaço de gelo estabelece um diálogo com uma das peças mais ricas em memória do acervo do museu: o Alfinete de Peito com Pérolas, uma peça histórica oferecida pelo rei Vítor Manuel II à sua filha, D. Maria Pia, aquando do seu casamento com o rei D. Luís, em 1862. Tal como o alfinete real combina a opulência dos diamantes com a suavidade das pérolas pendentes, a interpretação contemporânea da artista captura a essência desse magnetismo, unindo o património histórico à efemeridade da criação atual através da pura geometria da luz.
Daniel Schär expõe três obras de diferentes cores dominantes na sua tela: amarelo, verde e vermelho. Na obra em tons vermelhos, intitulada “Litany” — que segundo o artista foi inspirada no compositor Arvo Pärt —, somos envolvidos por uma massa de vermelho intenso. Esta riqueza cromática estabelece um paralelo direto com os grandes Rubis do acervo do Museu do Tesouro Real, onde a intensidade do vermelho histórico e as suas marcas internas testemunhavam a autenticidade e o poder dinástico inabalável.
O diamante vermelho, embora não esteja presente na coleção do museu, representa o pináculo das cores de fantasia (fancy colors). É a cor mais rara de todas e, quanto mais saturada e forte for a tonalidade, mais valioso e escasso se torna o mineral. Embora o diamante verde também seja extremamente raro. Nesta simbiose entre cor, música e gemologia, encontramos uma ligação indissociável entre qualidade e beleza. O melhor exemplo desta raridade extrema é o diamante “Winston Red” (de 2,33 quilates), sobre o qual Wuyi Wang, vice-presidente de investigação e desenvolvimento do GIA, afirmou: ”Um diamante natural obter a classificação de cor vermelha de fantasia é extremamente raro. Primeiro, precisa de ter uma cor perfeita nessa gama e, depois, a saturação também tem de ser perfeita. Se for demasiado escuro, passa a preto; se for demasiado claro, passa a cor-de-rosa.” Mas a complexidade desta obra de Schär não se fica por aqui. No centro da composição, deteta-se uma mancha amarelada que funciona como a tradução visual de uma inclusão observada através de um microscópio estereoscópico — uma 'imperfeição' na massa vermelha que mimetiza o mundo da gemologia. Embora a pureza de um diamante seja um fator comercial determinante, certas inclusões valorizam a gema pela sua beleza única ou relevância geológica, sendo precisamente através destas assinaturas da natureza que os especialistas diferenciam uma pedra natural de uma sintética. No caso específico de um diamante vermelho, uma zona amarela interna assinala, geralmente, a presença de elementos químicos como o azoto.
A obra em tons verdes de esmeralda “Underwater” exibe linhas e rasgos que se assemelham às fraturas internas de uma esmeralda. As esmeraldas são gemas notoriamente frágeis: embora apresentem uma dureza de 7.5 a 8 na escala de Mohs, as suas tensões estruturais e as generalizadas fraturas naturais dão-lhes uma tenacidade fraca. Isto torna-as propensas a lascar, estalar ou partir sob pressão — seja no uso diário ou no momento delicado da sua cravação numa joia. O Museu alberga algumas das mais impressionantes esmeraldas da joalharia europeia (como as presentes nas insígnias e placas de ordens militares). No entanto, este verde denso pode também assemelhar-se ao de um diamante verde, uma raríssima gema de fantasia (fancy color). Ao contrário da esmeralda, o diamante verde deve a sua cor a um processo extremo: a exposição prolongada à radiação natural emanada por rochas vizinhas nas profundezas da Terra, a qual altera a sua estrutura cristalina e modifica a forma como a gema absorve a luz. O Dresden Green (ou Verde de Dresden) é o exemplo histórico mais famoso no mundo deste fenómeno geológico.
Na obra onde o amarelo vivo colide com massas verdes e escuras, “What becomes clear”, a ambiguidade da cor volta a desafiar o espetador. Este campo cromático assemelha-se à gema peridoto, uma pedra idiocromática; isto significa que a sua cor verde-oliva intensa se deve à sua própria composição química elementar — pela presença massiva de ferro — e não a impurezas externas. No Antigo Egito, o peridoto era denominado a "gema do sol”, devido ao seu brilho e cor verde-amarelada vibrante, tendo sido uma das pedras favoritas de Cleópatra (cuja coleção foi, muitas vezes, confundida com esmeraldas). Um dos mais incríveis exemplos da utilização do peridoto na arte sacra encontra-se no relicário coberto de ouro do Santuário dos Três Reis Magos (Shrine of the Three Kings), na Catedral de Colónia, Alemanha.
O diálogo conceptual desta exposição materializa-se de forma exemplar na fotografia artística de Isabel Soares dos Reis. Nesta macrovisão do mundo exterior vemos o espelho da microfotografia gemológica. A sua obra pode ser interpretada, através das suas linhas geométricas e planos de luz, como visualmente o fenómeno do internal graining — as linhas de tensão e crescimento gravadas na estrutura atómica profunda de um diamante. Por outro lado, ao capturar o rasto luminoso e fluído de uma ave em movimento contra um fundo ramificado, simula uma pena ou feather (as fraturas internas em forma de pena que habitam os minerais) como o efeito dinâmico da fotofluorescência, onde a matéria parece brilhar na escuridão ao reagir à luz. Conclui-se, assim, que quer nas profundezas geológicas de uma gema, quer na superfície de uma tela ou película fotográfica, a Luz, a Forma e a Cor operam sob os mesmos princípios universais, unindo de forma indissociável a precisão da ciência e a sensibilidade da arte.
Dulce Carvalho
Jessica Dunn
Mac Gulbenkian apresenta uma fotografia com um pavão, cujo azul contrasta com o rosa/vermelho da parede. O pavão é um símbolo de realeza, sobretudo na Índia, onde joias com este motivo eram usadas por marajás como símbolo de estatuto supremo. O azul profundo do pavão assemelha-se ao azul intenso das safiras e da opalas. O pavões possuem penas com nanoestruturas geométricas que refletem e dividem a luz, criando o fenómeno chamado iridescência. O mesmo fenómeno que acontece na madre pérola. Podendo ser observado no Museu através dos: Leques Reais e Tabaqueiras e Caixas de Rapé.
O trabalho de Maria João Vale centra-se no estudo da luz sobre duas cores primárias: o vermelho e o azul, que operam aqui como opostos cromáticos (o quente e o frio). Esta paleta remete diretamente para o magnetismo dos rubis — visível na peça Presilha de ombro/chapéu — e para a profundidade translúcida das safiras, que encontramos no Meio-adereço com estojo (medalhão e par de pingentes). Nesta obra, “Piscina” podemos encontrar uma metáfora visual para os fenómenos óticos descritos na gemologia. Neste caso, embora o objeto retratado seja distinto de uma pedra preciosa, a forma como interage com a luz ilustra com precisão científica os conceitos de Brightness (Brilho), Scintillation (Cintilação) e Refração.
Os reflexos ondulantes da água da obra “Piscina” funcionam exatamente como o brilho e a cintilação de uma safira lapidada. Quando a luz entra numa gema através das suas facetas, ela sofre refração e reflexão interna total. O que vemos na água é uma projeção macroscópica desse fenómeno: a luz a ser dobrada, concentrada e dispersa, criando linhas de energia pura que dão "vida" à matéria escura.
A metade superior da composição desta fotografia, sob uma iluminação mais uniforme e difusa, revela claramente a estrutura geométrica estável e o padrão da rede de azulejos. No entanto, o verdadeiro dinamismo acontece quando a luz atravessa a água, sofrendo uma mudança imediata na sua velocidade e direção devido à superfície ondulante. Este processo de Refração é inteiramente análogo à forma como a luz viaja através de uma gema, sendo alterada pelo seu índice de refração (RI). Na imagem, a grelha de azulejos no fundo funciona como o "pavilhão" de um diamante, onde a luz é captada, refletida e distorcida.
É nesta distorção fluida que os elementos gemológicos ganham vida. As zonas onde a luz é devolvida de forma clara e intensa representam o Brightness — o efeito resultante da reflexão interna e externa da luz branca. Simultaneamente, o movimento da água gera um contraste dramático entre as áreas azuis intensas e as linhas brancas brilhantes que se movem e oscilam. Este jogo visual exemplifica a Scintillation, ou seja, os flashes de luz e as áreas escuras contrastantes que observamos num diamante quando a gema, a luz ou o próprio observador se movem.
O tom azul elétrico e saturado que domina a imagem evoca ainda o limite da luz visível, estabelecendo uma ponte com o famoso “Diamante Português” e o conceito de que o espectro eletromagnético inclui comprimentos de onda invisíveis, como a radiação ultravioleta responsável pela forte fluorescência azul das gemas.
Mais ainda, nesta metade inferior, a turbulência da água agem como facetas vivas que decompõem a luz em flashes. Este fenómeno evoca diretamente o conceito de Fire (Fogo) ou Dispersão, que é a separação da luz branca nas cores do arco-íris ao atravessar um meio denso. Na gemologia, este efeito é amplificado em materiais com Índices de Refração e dispersão muito elevados. É o caso da Zircónia Cúbica sintética (CZ), um simulante comum do diamante com um RI próximo de 2.150, ou da Moissanite sintética que, sendo ainda mais refrativa que o próprio diamante (RI de cerca de 2.670), exibe um "fogo" avassalador. Os diamantes que integram a coleção do Museu exibem também uma dispersão, embora com características ligeiramente diferentes das gemas modernas devido à forma como foram lapidados. o contrário dos diamantes modernos (lapidação Brilhante), os diamantes da Coroa Portuguesa expostos no Museu apresentam lapidações antigas, como a lapidação em rosa (rose cut) ou as lapidações antigas de brilhante (old mine cut e old European cut).
Marjorie Salvagni exibe três obras da ‘Série Transmutações’, que são altamente representativas daquilo que inspira a joalharia: a simbiose perfeita entre a arte e o mundo natural. Esta simbiose encontra eco na Morfologia Estrutural de Lancelot Law Whyte, que defende que todas as estruturas vivas partilham um sistema coordenado de simetria e transformação. Sob esta perspetiva, a matéria orgânica está sempre em processo de transição (mutação) para alcançar o equilíbrio, transformando a obra num registo visível de um processo dinâmico de crescimento, mutação e coordenação interna que rege tanto a biologia como o cosmos.
Exemplo máximo deste diálogo entre a joalharia e o mundo natural é a Cartier — uma das mais prestigiadas casas de alta joalharia do mundo e criadora de peças para várias cortes europeias —, que adotou a pantera (retratada na tela flanqueada por uma exuberante flora tropical) como o seu símbolo icónico, imortalizando a força e os movimentos sinuosos da natureza em metal e pedras preciosas. Foi sobre o esplendor desta casa que o rei Eduardo VII do Reino Unido cunhou a célebre máxima: "Cartier, o joalheiro dos reis e o rei dos joalheiros”.
Numa composição de cores ricas e variadas, a obra de Salvagni harmoniza a fragilidade dos elementos orgânicos, como as pérolas (nascidas da própria vida), e a força dos inorgânicos, materializada no diamante que flutua no topo da tela. A gema surge representada no seu perfil clássico e universal de lapidação brilhante, onde se distinguem claramente a coroa, a cintura e as facetas geométricas do pavilhão que afunilam em direção à base. Esta estrutura lapidada introduz uma rigidez cristalina e simétrica que contrasta com a fluidez orgânica da vegetação envolvente. Nas pérolas, esta riqueza cromática manifesta-se através dos fenómenos de Matiz e Oriente (Overtone & Orient): o primeiro, revelando as subtis tonalidades secundárias que flutuam sobre a cor base da gema; o segundo, o seu brilho iridescente e profundo, que parece emanar do seu interior. Esta dualidade material e cromática remete diretamente para a Placa das Três Ordens Militares, uma das maiores obras-primas do acervo do museu, onde o diálogo entre o "fogo" dos diamantes e o brilho das gemas de cor dita o ritmo absoluto da luz.
No percurso desta exposição, a obra de Martin Stranka surge como um poderoso ponto de ancoragem para o fator humano — o recetáculo final onde a física da luz se transforma em emoção através da retina. Ao apresentar uma fotografia em preto e branco focada nos olhos, o artista resgata a nossa própria capacidade de testemunhar e interpretar o mundo, conectando a ciência da visão à profundidade da alma. Estes olhos, que integram uma série densa e intimista que o fotógrafo dedicou ao tema da perda, flutuam num espaço emoldurado pelo vazio absoluto de um fundo preto. Aqui, o olhar manifesta-se como um símbolo complexo, onde coexistem a afirmação, o luto e a negação. Sob a lente de Stranka, opera-se a dualidade máxima da física e da arte: o preto como a ausência absoluta de cor e o branco como a totalidade mística da luz. No livro “Arte e Percepção Visual”, Rudolf Arnheim analisa detalhadamente o rosto humano, a anatomia e, especificamente, as representações frontais da face de Cristo por Albrecht Dürer (Christ’s Face). Arnheim explica que o olhar frontal e isolado cria uma força vetorial direta com o espetador: os olhos deixam de ser apenas anatomia biológica e passam a ser o centro puro da mensagem, agindo como um íman percetivo que exige uma resposta psicológica imediata.
Na alta joalharia, o preto ganha vida através dos diamantes pretos naturais. Curiosamente, estas gemas raras devem a sua cor opaca a inúmeras inclusões microscópicas que absorvem e retêm a iluminação, impedindo a passagem da luz natural — um comportamento físico diametralmente oposto ao do Diamante em bruto que repousa na coleção permanente do Museu do Tesouro Real, cujo brilho nasce justamente da sua transparência e refração.
O contraste estende-se também à nossa própria história cultural e social. Embora a contemporaneidade associe frequentemente o preto à simplicidade, ao luto ou ao minimalismo da moda urbana, esta cor já carregou o peso da máxima opulência. Entre os séculos XV e XVII, o pigmento preto era um dos mais caros e difíceis de obter, tornando-se o maior símbolo de riqueza, autoridade e sofisticação no seio da realeza europeia — a mesma realeza que outrora ostentou as joias da Coroa que hoje nos rodeiam. Na obra de Stranka, o preto deixa de ser apenas um plano de fundo e passa a ser, tal como no diamante negro, a presença mais densa da exposição: o lugar onde a luz se recolhe para dar espaço à memória.
Mónica de Morais cria uma obra que pulsa na perfeita harmonia entre luz, forma e cor. Na sua primeira criação, 'Passagem', a sombra surge como o elemento principal, projetada pela luz que incide sobre uma aparente 'cruz' ou um 'T' gerado pelo contraste entre o claro e o escuro. Aqui encontramos os quatro elementos fundamentais desta exposição: a sombra, a luz, a forma e a cor. A cruz é o ponto de encontro, a fronteira e a transição entre o plano horizontal e o vertical, entre o claro e o escuro. Um formato de letra muito utilizado na joelheira desde a época medieval. Já na obra '9', que representa um cubo a desfazer-se em tons escuros, acinzentados e linhas pretas, a artista remete-nos para o sistema cristalino cúbico (ou isométrico). Trata-se da estrutura interna de gemas altamente simétricas e valiosas, evocando aqui um diamante em desconstrução, a desaparecer. Sabendo que, na estrutura do diamante, cada átomo de carbono está ligado covalentemente a outros quatro átomos de carbono dispostos nos vértices de um tetraedro regular, a artista subverte esta rigidez científica com o numero '9'. A artista utiliza assim a Forma de Distorção ou Deformação (Deformation) descrita por Arnheim, subvertendo a rigidez geométrica da estrutura atómica do diamante com o misticismo do número que a titula.
Rita Andrade apresenta uma abordagem figurativa focada nos olhos e na cor púrpura. Os olhos simbolizam aqui o próprio veículo da visão humana, o recetor absoluto sem o qual seria impossível à retina captar o jogo de luz e cor que rege esta exposição. Em paralelo, o tom púrpura confere à obra uma aura de exclusividade associada à realeza e ao clero, numa alusão direta à ametista. Esta gema, que hoje admiramos em grandes coleções históricas — como no acervo do Museu do Tesouro Real —, deteve durante séculos um estatuto de enorme preeminência na joalharia de corte e na insígnia eclesiástica. Ao colocar o olhar em confronto com o púrpura, a artista convida o visitante a resgatar a memória histórica do luxo e da devoção, transformando o ato de ver numa experiência de contemplação quase sagrada. Antes da descoberta das grandes minas no Brasil no século XVIII, a ametista era tão rara e valiosa quanto o rubi ou a safira. O roxo era a cor do poder, obtida através de processos caríssimos na antiguidade (como a púrpura de Tiro). Como as ametistas eram escassas (as principais fontes eram a Sibéria e o Egito), apenas a realeza e o alto clero as podiam financiar — daí o seu uso tradicional nos anéis dos Bispos e nas Joias da Coroa.A ametista possui um pleocroísmo uma a capacidade de mostrar cores diferentes quando vista de ângulos distintos. No livro “Arte e Percepção Visual”, Rudolf Arnheim analisa detalhadamente o rosto humano, a anatomia e, especificamente, as representações frontais da face de Cristo por Albrecht Dürer (Christ’s Face). Arnheim explica que o olhar frontal e isolado cria uma força vetorial direta com o espetador: os olhos deixam de ser apenas anatomia biológica e passam a ser o centro puro da mensagem, agindo como um íman percetivo que exige uma resposta psicológica imediata.
Na obra de RVieira, o verde da natureza funde-se com a nobreza mineral da esmeralda. Ao capturar uma paisagem onde a luz incide diretamente sobre a vegetação, a artista transfigura o espaço, desdobrando-o em infinitas tonalidades esverdeadas. Esta conexão evoca, de forma quase mística, o próprio 'jardin' (jardim) das esmeraldas — o nome técnico dado às inclusões internas da gema que mimetizam a vida botânica —, provando que a luz, ao tocar a matéria, tem o poder de transformar paisagem em joia. A cor verde nas plantas vem da clorofila, que absorve a luz solar para gerar vida. Nas esmeraldas, o verde nasce da absorção da luz por vestígios de crómio e vanádio. A artista, ao pintar a luz a incidir na vegetação, está a replicar o exato milagre ótico que a Terra faz para colorir a gema. Já no século I, o filósofo Plínio, o Velho (o mesmo do mito da pintura) escrevia Livro XXXVII (o 37.º volume), que é dedicado inteiramente às pedras preciosas e à gemologia - "Nenhuma cor é mais agradável aos olhos. Pois, enquanto observamos outras gemas e ervas, cansamo-nos, mas a esmeralda, ao olharmos para ela, refresca a nossa visão e fatiga-se com a sua contemplação; e os gravadores de pedras preciosas, ao trabalharem nelas, não têm meio melhor de repousar a vista do que fixando o olhar nesta pedra.” Plínio, o Velho. No caso da obra “O Galo”, estamos perante a biologia animal e não a vegetal. O galo assume uma beleza incontestável na cultura portuguesa, destacando-se a complexidade da sua plumagem e crista. A plumagem do galo, à semelhança da do pavão, exibe uma iridescência estrutural fascinante.
Quando a luz incide sobre as penas, cria um efeito visual dinâmico que, embora evocativo do fenómeno físico do pleocroísmo ou do jogo de cores típico das gemas, resulta de um processo de difração e interferência da luz na microestrutura da pena. Dependendo do ângulo de visão (simetria de observação), certas ondas de luz são canceladas enquanto outras são reforçadas, fazendo com que o galo pareça mudar de tonalidade — do azul metálico para o verde-esmeralda ou cobre.
A plumagem do galo é um exemplo perfeito de biomorfismo geométrico. Se ampliarmos a superfície de uma das suas penas, observaremos uma grelha de elementos alinhados tão rigorosamente como os átomos numa estrutura cristalina. É esta organização repetitiva que "quebra" a luz branca e nos devolve cores puras e saturadas, funcionando de forma análoga à de uma gema lapidada, cuja geometria é precisamente calculada para maximizar o seu "fogo" ou dispersão de luz.
A obra de Teymur Rustamov transita fluidamente entre o violeta e o vermelho, gerando um gradiente cromático que ecoa um fenómeno fascinante do reino mineral: o color zoning (zoneamento de cor). Esta transição, frequentemente observada em safiras e turmalinas bicolores, reflete as variações da matéria na própria tela, como se a pintura imitasse o crescimento orgânico de um cristal. Na natureza, as frentes de crescimento químico fundem-se de forma subtil, criando uma passagem impercetível onde o violeta se dissolve lentamente até se transformar em vermelho. A turmalina, considerada um autêntico camaleão mineralógico, ilustra na perfeição esta mutação: a sua transição tonal (frequentemente associada às variedades de indigolite e rubelite) ocorre devido a flutuações nas concentrações de manganês e ferro na solução hidrotermal profunda.
Esta passagem tonal reflete com precisão a visão de Lancelot Law Whyte, para quem a ausência de uma geometria rígida não significa falta de lógica, mas sim um padrão dinâmico e fluido que foi "congelado" no tempo, tal como o crescimento químico de uma turmalina bicolor profunda nascido da dialética entre as partes e o todo.
Para aprofundar este cruzamento entre Luz, Forma e Cor, convidámos um painel de especialistas de diversas áreas para partilharem a sua visão. Neste folheto, encontrará ainda material educativo e científico desenhado para enriquecer a sua experiência.
Esperamos que desfrute desta viagem única entre a exposição contemporânea e a coleção permanente do museu. Boa visita!
O Curador: Francisco Lacerda